quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O parto, a hemorragia e o medo de morrer.

Trinta e nove semanas.
Minha filha nasceu em uma segunda feira, seis e meia da tarde, com trinta e nove semanas de gestação, saudável, e simplesmente linda, não há outra palavra que possa descrever minha menininha, sei que todas as mães dizem isso dos seus filhos, mas a minha é a mais!! Brincadeirinha, todo bebe nasce lindo, e tem como um anjo ser feio??
Bem, vamos la para a parte chata da coisa, pois ate no momento mais lindo da minha vida a síndrome do pânico não me abandonou...
Eu ja não tinha aquele medo congelante do parto, mas ainda era negativa, a minha mente sempre tentando boicotar o meu bem estar, eu ainda achava que algo iria dar errado. Estava la registrado na minha carteirinha de gestante que eu era portadora de síndrome do pânico, meu trabalho de parto durou 14 horas e meia, e eu aguentei bem, realmente achei a dor suportável, eu estava ate rindo, conversando tranquila, as dores começaram  ja de cinco em cinco minutos, e gente isso cansa muito, mas acreditem, mesmo com toda a dor, eu não senti pânico, senti aquele medo natural que toda mãe sente, um medo normal digamos assim , mas não senti tremores, suores, coração acelerado, nada! No inicio da gestação eu pensava que não aguentaria tanta dor, eu morreria, ou desmaiaria na mesa de parto, mas eu fui forte e tranquila, sinto muito orgulho disso, hehehe, meu marido esteve comigo todo o tempo, e isso me ajudou muito, terei oitenta anos e serei grata a ele por esse companheirismo, apesar que ele passou dias rindo da minha cara, dizendo que eu parecia um tomate prestes a explodir. A minha princesa nasceu linda e veio direto para o meu colo, depois meu marido foi com ela para colocarem roupinhas e tudo mais, fiquei la enquanto o medico terminava o processo todo, e fiquei conversando, hoje acredito que não entrei em pânico simplesmente porque meu corpo estava preparado para isso, minha mente tinha medo, mas meu corpo sabia que aquilo era natural, não representava perigo, por isso meu corpo não teve essas reações tão desagradáveis, mas o pior ainda estava por vim...
Saí da sala de parto e fiquei na sala de observação, ficamos ali para o caso de uma hemorragia ou complicação, eles correm logo com a gente para o centro cirúrgico. Trouxeram minha pequena, e gente como ela era linda!!Ela não nasceu enrugadinha, ou com a pele manchadinha, nada, ela nasceu maravilhosa, cheirosa, minha florzinha, ainda hoje choro só de lembrar, a enfermeira colocou ela para mamar, que momento  M A R A V I L H O S O , você entende nesse instante o quanto você é essencial para aquele ser tão pequeno, foi nesse momento maravilhoso que eu comecei a tremer, o corpo todo, sentia frio, um frio que não passa, e eu estava com muita dor nos pontos, me desesperei, falei: TO MORRENDO!! A enfermeira veio e me disse que isso iria passar era um efeito da anestesia local que aplicaram, que era normal e ja ia passar, meu Deus como aquilo foi assustador. Levaram-me para o quarto, meu marido teve que ir embora, não permitiam homens passar a noite la, eu fiquei sozinha ate minha amiga chegar, eu não tinha forças para nada, mas era só felicidade, umas três horas apos o parto me deu novamente aquela tremedeira horrível, meu corpo doía de tanto que tremia, a enfermeira disse que era pscicologico, então fiquei quieta abracei minha filhinha, ate aquilo passar, no outro dia eu vi todas as mulheres levantando indo tomar banho, fortes, andando normalmente, e eu la, não tinha forças para levantar e os médicos dizendo que era normal, que eu tinha que perder o medo levantar tomar banho, que logo iria melhorar, arranquei forças não sei de onde, levantei tremendo de fraqueza, dei banho na minha filha, e fui tomar banho me arrastando, eu não tinha força. Os dois dias que fiquei internada eu fiquei assim, fraca, sem fome, sabia que tinha algo errado, eu não estava bem! A medico veio  me dar alta, eu falei que não estava bem, aquela fraqueza não ia embora, ela falou : "Mãe você tem que comer."
O meu primeiro dia em casa, fui tomar banho e desmaiei, fui no posto de saúde, me falaram que foi só uma queda de pressão, devido a fraqueza, que eu devia comer e ia ficar tudo bem. Gente eu não tinha forças nem de ir da minha cama para a cozinha, mas como disseram que era pscicologico, eu me esforçava ao máximo e tentava fazer uma coisinha ou outra, eu chorava, chorava muito, tinha muita vontade de chorar, não tinha animo nenhum, pensei que estivesse com depressão pós parto, meus pontos doíam tanto que latejavam, fui então na reconsulta , dez dias apos meu parto, relatei  ao médico que eu estava fraca demais, que meus pontos doíam demais, que o sangramento não parecia normal, tava muito escuro, ele olhou e disse que estava normal, um dos pontos estava aberto, ele decidiu não mexer, disse que havia  dado uma fibrose no ponto, uma fibrose é uma carne esponjosa, ele falou que como o corte foi profundo a carne na tentativa de cicatrizar mais rápido acabou criando um excesso, que eu poderia operar mais tarde, sim eu sei, eu sou muito azarada, mas ele disse que iria ficar tudo bem. Eu tava cansada de ouvir isso e não ficar bem. Doze dias apos meu parto tive febre do leite, meu seio empedrou, chorei muito, e não tinha ninguém alem do meu marido para ajudar a cuidar da minha filha, ele mal dava conta de limpar a casa, eu tinha que cuidar dela mesmo fraca, eu não tinha fome, mas comia porque ela precisava de leite, eu cuidei dela com forças que só Deus me deu, hoje vejo que foi ele quem me ajudou, sem ele eu teria morrido, eu não tive nem mãe nem sogra para cuidar de mim quando cheguei em casa, era eu, meu marido, minha filha e meu medo.Com treze dias, a febre do leite passou, levantei e fui tomar banho, quando começou a hemorragia, aquele sangue sem fim, gente parecia uma torneira, que desespero, pensei:Vou morrer agora! Eu sabia! - Saímos correndo para a maternidade, fui comendo uma maçã, cheguei la, me levaram fazer uma ultrasson, não sei porque não fizeram antes quando disse tantas vezes que eu não estava bem, o medico olhou para minha cara e falou : " Você tem restos placenta aqui, vou internar e fazer uma curetagem". Gente que desespero, voltei para sala e chamei meu marido que iria ficar comigo, chorei agarrada nele e na minha boneca, eu não sabia como era uma curetagem, nem se era perigoso, mas sabia que estava com hemorragia, nesse dia eu pensei de verdade que fosse  morrer, mas não como nos ataques de pânico, era mais consciente, chorei olhando para minha filha, e pensei que não era justo, eu já sofria tanto com a síndrome do pânico, com medo todo dia, eu era boa, queria viver, ver minha filha crescer.
Como eu havia comido a bendita maçã, eu fiquei 8 horas, sangrando, chorando, esperando para poder fazer a curetagem, e quando deu o horário, eu tive que esperar mais porque a anestesista ainda não tinha chegado, esse é nosso sus, eu fiquei la do meio dia ate 11 horas da noite sangrando. Enfim, me levaram para a sala, e eu chorando, pensando que aquela era uma despedida da minha filha amada e do meu marido tão querido, amamentei minha filha e fui. A medica que fez o procedimento, era uma querida, por sorte minha, ela me explicou então como seria, que a anestesia era leve e tudo, relaxei e pensei em Deus, quando acordei meu marido estava olhando para mim e minha filha já estava do meu lado, pronta para mamar. Eu acordei outra pessoa, com fome e animada, a medica mandou eu levantar e me vestir, quando fui fazer isso o sangue de novo!! Um monte, coagulado, parecia um figado de boi enorme, gritei para a médica, ela veio correndo, chamou as enfermeiras, elas haviam esquecido de aplicar a tal da injeção que faz nosso útero retrair, por isso eu estava com hemorragia de novo. Sai de la umas duas da madrugada.
Depois disso, eu só melhorei, morria de fome, animada, feliz com meu bebe, não tinha mais vontade de chorar, meus pontos não doíam mais.
E isso que segundo os médicos eu não tinha nada.
Eu tive muito medo de morrer , mas graças ao pânico eu tive duas vezes mais medo.
Eu não precisava passar por esse pesadelo , se os médicos tivessem me ouvido, me dado atenção. Contei essa parte chata da minha vida, para mostrar que apesar da síndrome do pânico ter piorado meus medos nessa situação, eu não entrei em pânico, histérica, ou perdi o controle, me desesperei, mas não tive ataques de pânico em nenhum desses momentos que foram tão assustadores.



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